Dados oficiais da ENTSO-E, confrontados com os totais da REN, e séries complementares (ENTSOG, Eurostat, Open-Meteo, Red Eléctrica) · atualizados todos os dias, de madrugada · último dia completo: 7 de novembro de 2026 · última atualização: 08/11/2026, 05:47 de Lisboa
A resposta
Para garantir 2 GW durante 120 horas seguidas, três vezes por ano, a opção mais barata é manter uma central a gás que já existe: cerca de 127 milhões de euros por ano, uns 6 € por família. Baterias de lítio com a mesma energia custariam perto de 4 mil milhões. Mude os pressupostos abaixo e veja se a ordem muda.
Gaspar do Amaral · emitido a 23 de outubro de 2026. Os valores de partida são ordens de grandeza, a confirmar nas fontes; os pressupostos estão à vista para poderem ser contestados.
Pressupostos
Custo total por ano
Barras em escala logarítmica, para caberem no mesmo desenho dezenas e milhares de milhões de euros. Os números à direita são os valores reais.
Opção
Estar pronto (M€/ano)
Cada calmaria (M€)
Total (M€/ano)
€ por MWh entregue
Por família (€/ano)
Ficam fora das contas, por não terem custo de construção: a água já guardada nas albufeiras (o custo é contratar a sua disponibilidade, ainda por calcular) e a interligação com Espanha (só serve se Espanha tiver sobra e o cabo tiver espaço; em 2026, até 17 de outubro, os preços dos dois países separaram-se em 14 % das horas).
O que a figura quer dizer. Para a mesma eólica há três números, e medem coisas diferentes. A disponibilidade técnica (98 a 99 %) diz que a turbina está pronta a rodar. O fator de capacidade anual (28 %) diz quanto produz em média. O fator de capacidade na pior semana de cada ano (8 % em média; 7 % em 2026, até agora) diz quanto garante quando o país mais precisa. No nuclear os três números andam juntos, perto dos 90 %; na eólica vão de 99 % a 5 %. Comparar tecnologias pela disponibilidade técnica é comparar coisas diferentes: para a segurança de abastecimento conta o último número.
O que a figura quer dizer. O fator de valor é o preço médio que uma tecnologia recebe a dividir pelo preço médio do mercado. Em 2015, o solar recebia 6 % acima da média; em 2026 recebe cerca de metade, porque todos os painéis produzem à mesma hora e baixam o preço uns aos outros. É por isso que um painel virado a este-oeste, que produz menos no total, pode valer mais do que um virado a sul: produz nas horas mais caras, de manhã cedo e ao fim da tarde. É também por isso que o custo nivelado de cada tecnologia, sozinho, não chega para comparar: conta a hora em que se produz.
Aprender com esta página
A mesma semana vista de seis alturas
A pergunta é sempre a mesma: quem segura o país na pior semana de vento? Muda a matemática com que se responde. Cada degrau usa só o que se aprende nesse ano e dá um passo a mais do que o anterior. As contas usam os números desta página; quem mexer nos pressupostos lá em cima vê as respostas mudar.
Cidadão · sem contas
Quanto me custa este seguro?
Segurar a pior semana é como o seguro do carro: paga-se todos os anos, mesmo nos anos em que nada acontece. A tabela mostra o custo por família e por ano, se for repartido por todo o consumo do país:
manter uma central a gás que já existe: cerca de 6 €;
construir turbinas a gás novas: cerca de 13 €;
pagar a fábricas para pararem quando falta energia: cerca de 23 €;
baterias de lítio para a semana inteira: cerca de 198 €.
O que levar daqui. O seguro mais barato não é o mais moderno: é o que já está construído. Antes de desmontar uma central, convém perguntar o que a substitui na pior semana e quanto isso custa a cada casa.
Pergunta para a mesa de jantar
Se a central existente fosse desmontada e a substituta fosse a terceira opção da lista, quanto pagaria a mais cada família por ano? Resposta: 23 − 6 = 17 € por ano, para ter a mesma segurança.
7.º ano · proporcionalidade direta e unidades
Potência não é energia
A potência (GW) diz quanto se entrega em cada instante; a energia (GWh) diz quanto se entrega no total. Energia = potência × tempo.
1. Quanta energia são 2 GW durante 120 horas?
2 GW × 120 h = 240 GWh. É cerca de um quarto de tudo o que Portugal consome numa semana (50 000 GWh por ano ÷ 52 semanas ≈ 960 GWh por semana).
2. Quantas baterias de telemóvel (15 Wh cada) seriam precisas?
240 GWh = 240 000 000 000 Wh. A dividir por 15 Wh dá 16 mil milhões de telemóveis: duas vezes a população da Terra.
3. E baterias de carro elétrico (60 kWh cada)?
240 GWh = 240 000 000 kWh. A dividir por 60 kWh dá 4 milhões de carros elétricos com a bateria cheia, todos ligados à rede durante cinco dias.
9.º ano · percentagens e proporcionalidade inversa · Figura A
A média engana
Portugal tinha, em 2026, cerca de 5,4 GW de eólica instalada (dados declarados à ENTSO-E). A Figura A diz quanto dessa potência aparece em média (28 %) e na pior semana do ano (7 % em 2026).
1. Quantos GW dá a eólica em média e na pior semana?
Em média: 5,4 × 0,28 ≈ 1,5 GW. Na pior semana: 5,4 × 0,07 ≈ 0,38 GW. A mesma eólica dá quatro vezes menos quando mais falta.
2. Quanta eólica seria precisa para dar 2 GW na pior semana?
Se só 7 % aparece, é preciso 2 ÷ 0,07 ≈ 28,6 GW: mais de cinco vezes o que existe. Quanto menor a percentagem, maior a potência a instalar: é proporcionalidade inversa.
O que se aprende. Para a segurança de abastecimento não conta a média: conta o pior caso. Uma escola dimensiona a cantina para o dia de mais alunos, não para a média.
10.º ano · Física e Química A · energia e rendimento
Quanto gás se queima para entregar a mesma energia?
Nenhuma central transforma todo o gás em eletricidade. O rendimento é a parte que sai como eletricidade: 55 % numa central de ciclo combinado, 38 % numa turbina a gás simples. O resto sai como calor.
1. Quanto gás queima cada uma para entregar 240 GWh?
Ciclo combinado: 240 ÷ 0,55 ≈ 436 GWh de gás (196 GWh perdidos em calor). Turbina simples: 240 ÷ 0,38 ≈ 632 GWh de gás (392 GWh perdidos em calor).
2. Quanto CO₂ emite cada uma numa calmaria?
O gás natural emite 0,202 t de CO₂ por MWh queimado. Ciclo combinado: 436 364 MWh × 0,202 ≈ 88 mil toneladas. Turbina simples: 631 579 MWh × 0,202 ≈ 128 mil toneladas. O rendimento mais alto poupa gás e poupa emissões.
11.º e 12.º anos · Matemática A · juros compostos e logaritmos
Porque é que as baterias saem tão caras?
240 GWh de baterias a 150 €/kWh custam 240 000 000 kWh × 150 € = 36 mil milhões de euros. Ninguém paga isso de uma vez: o investimento é pago em prestações anuais, como um crédito à habitação.
1. Qual é a prestação anual, a 7 % durante 20 anos?
Prestação = C × r ÷ (1 − (1 + r)−n) = 36 000 × 0,07 ÷ (1 − 1,07−20) = 36 000 × 0,0944 ≈ 3 398 M€ por ano. Com a manutenção (1,5 % de 36 000 = 540 M€) chega-se aos 3 938 M€ da coluna «Estar pronto».
2. Porque é que as barras estão em escala logarítmica?
A opção mais barata custa 127 M€ e a mais cara 3 963 M€: 31 vezes mais. Numa escala normal, a barra mais curta teria 3 % da largura e quase não se via. Na escala logarítmica conta o número de algarismos: log₁₀ 127 ≈ 2,10 e log₁₀ 3 963 ≈ 3,60. Cada passo de 1 na escala é multiplicar por 10.
3. Experiência: baixe o juro de 7 % para 4 %. A ordem muda?
Não. As baterias descem para cerca de 3 213 M€ e as turbinas novas para cerca de 227 M€: continuam 14 vezes mais caras. Com 10 % de juro ficam 16 vezes mais caras. O juro muda o tamanho da diferença, não a ordem.
Licenciatura em Engenharia · adequação, sensibilidade e risco
Em que condições é que a resposta muda?
1. Ponto de equilíbrio: a que preço empatam as baterias com as turbinas novas?
Com os pressupostos centrais, as turbinas custam 257 M€ por ano. As baterias empatam quando C × (0,0944 + 0,015) + 3 × 8,2 = 257, ou seja C ≈ 2 126 M€, ou cerca de 9 €/kWh: 17 vezes abaixo do preço usado. Conclusão: o problema das baterias aqui é de energia (120 horas), não de potência. Uma bateria de 4 horas a 2 GW tem 8 GWh e resolve outro problema, o das pontas diárias.
2. Sensibilidade ao número de calmarias por ano
A derivada do custo total em ordem ao número de calmarias é o custo de cada calmaria: cerca de 8 M€ nas baterias, 22 M€ no ciclo combinado e 32 M€ nas turbinas. Passar de 1 para 6 calmarias por ano mexe pouco nas baterias (3 946 → 3 987 M€) e muito nas turbinas (192 → 354 M€). As baterias são quase todo custo fixo; as turbinas, custo variável. A ordem resiste em toda a gama.
3. Pontos únicos de falha que a tabela não mostra
As opções a gás dependem de haver gás nessa semana: o terminal de GNL de Sines, a ligação por gasoduto via Espanha e a armazenagem do Carriço são o caminho de abastecimento, e uma falha simultânea com a calmaria anula o seguro. A interligação com Espanha só ajuda se a calmaria não for ibérica (a separação de preços em 14 % das horas de 2026 mostra que o cabo já fica cheio com frequência). A procura que aceita parar raramente aguenta 120 horas seguidas. Cada opção tem de ser avaliada pela contribuição efetiva para a adequação (ELCC), não pela potência instalada.
4. Ligação às normas
A métrica correta não é o custo por MWh, mas a energia não fornecida esperada (EENS) e as horas esperadas de perda de carga (LOLE) face à norma de fiabilidade de cada Estado-membro: Regulamento (UE) 2019/943, artigos 24.º (avaliação nacional da adequação) e 25.º (norma de fiabilidade), e a avaliação europeia ERAA da ENTSO-E. A tabela desta página é um rastreio de custos, não uma avaliação de adequação.
5. Trabalho prático proposto
Reproduzir a Figura A com os dados públicos da ENTSO-E (produção por tecnologia, 16.1.B&C, e potência instalada, 14.1.A), calcular para cada ano a pior média móvel de 7 dias e estimar a distribuição dos 12 valores (5 a 12 %). Depois, calcular o fator de valor da Figura B: Σ(pt · qt) ÷ (Σqt · p̄), e explicar porque desce quando a potência solar instalada sobe.
Para professores: cada nível pode ser usado numa aula de 45 minutos, com a página aberta no projetor. As respostas estão fechadas para que os alunos façam as contas antes de as abrir. Os dados atualizam-se todos os dias, de madrugada, por isso as respostas ligadas à Figura A podem mudar ligeiramente até ao fim do ano.
Como se calcula
Investimento anualizado com a fórmula de recuperação de capital, r/(1−(1+r)−n). Central de ciclo combinado existente: só manutenção fixa; rendimento 55 %. Turbinas a gás novas: 25 anos, manutenção 20 €/kW por ano, rendimento 38 %. Emissões do gás natural: 0,202 t de CO₂ por MWh térmico. Baterias de lítio: 240 GWh, 20 anos, manutenção 1,5 % do investimento por ano, carga a 30 €/MWh, rendimento 88 %. Procura que aceita parar: preço por kW e por ano, sem custo de ativação (valor de referência espanhol a confirmar; poucos contratos aceitam parar 120 horas seguidas). Energia por calmaria: 2 GW × 120 h = 240 GWh. «Por família»: custo total ÷ 50 TWh de consumo anual × 2,5 MWh por família, supondo a repartição por igual por todo o consumo. Futuro barato: capital 4 %, gás 25 €/MWh, CO₂ 60 €/t, baterias 100 €/kWh, procura 150 €/kW·ano; futuro caro: 10 %, 50, 120, 250 e 300.
Figuras: fator de capacidade = produção eólica ÷ potência eólica instalada declarada à ENTSO-E (14.1.A); pior semana = menor média móvel de 7 dias em cada ano; fator de valor = média do preço do mercado diário (12.1.D, BZN|PT) ponderada pela produção de cada hora ÷ preço médio. A disponibilidade técnica foi indicada por um gestor de parques eólicos e não foi medida pelo autor. A produção solar da ENTSO-E pode não incluir todo o autoconsumo. As figuras desta página têm dados até 22 de outubro de 2026; os dados do dia estão no Monitor.
Cálculos de Gaspar do Amaral, com recurso a IA para programação e verificação.